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ER6 - trabalho escravo

 

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Escravos do aço

Pior que gado

Foto Sérgio Vignes/IOS
Detalhe da sujeira no local de armazenamento de água

Mesmo nas carvoarias onde não existe trabalho escravo, a legislação é sistematicamente descumprida. Os trabalhadores não recebem equipamentos de proteção individual, não têm alojamento nem assistência médica. Também não são registrados em carteira nem têm direito aos benefícios legais. "É uma realidade assustadora", define o procurador do Ministério Público do Trabalho em São Luís (MA), Maurício Pessoa Lima. "Em inspeções realizadas em carvoarias, eu vi o gado vivendo em melhores condições que os trabalhadores".

Em um relatório de inspeção realizada em carvoarias ligadas à Simasa e à Margusa, entre os dias 8 e 17 de março deste ano, o procurador do trabalho Luercy Lino Lopes apontou o envolvimento direto das siderúrgicas com o trabalho escravo. Escreveu Lopes:

"De um modo geral, em todas as carvoarias inspecionadas observou-se: (...) O trabalho é realizado em condições absolutamente aviltantes e degradantes, em total ofensa à própria dignidade dos trabalhadores, o que, segundo entendo pela atual redação do artigo 149 do Código Penal Brasileiro, tipifica a conduta pertinente à redução à condição análoga à de escravo".

Em outro trecho, o procurador acrescenta:

"Raramente algum trabalhador é flagrado de posse de EPI (equipamento de proteção individual); trabalham em meio à fuligem e fumaça de carvão, sem camisa ou com a camisa toda rasgada e suja; com calção e sem botinas e luvas. Em nenhuma das carvoarias vistoriadas foi encontrada água potável".

Reincidência

Local onde a Simasa deveria ter construído um alojamento com banheirosO uso de trabalho escravo envolvendo siderúrgicas não é recente. Em 1995, ano em que o Ministério do Trabalho criou o Grupo Especial de Fiscalização Móvel, quatro siderúrgicas localizadas no Mato Grosso e em Minas Gerais foram acusadas de manter trabalhadores escravos em carvoarias. No Mato Grosso, a pequena cidade de Ribas do Rio Pardo se tornou uma espécie de pólo escravagista, com denúncias em vários setores da economia.

No ano seguinte surgiram pela primeira vez, nos relatórios do Grupo Móvel, os nomes de siderúrgicas ligadas a grandes conglomerados econômicos. É o caso da siderúrgica Pindaré, da Queiroz Galvão, com sede em Açailândia (MA). Ela aparece em relatórios do Grupo Móvel em 1996, 1997, 1998, 2002 e 2003. A Simasa, também da Queiroz Galvão, aparece pela primeira vez em 2002, tornando-se freqüente desde então. A Margusa, comprada pela Gerdau no dia 2 de dezembro de 2003, aparece em março de 2004.

Diversos relatos do Grupo Móvel não caracterizam as situações encontradas como trabalho escravo, mas "trabalho degradante", o que é diferente. Enquadra- se na condição de trabalho degradante aquele em que o trabalhador não tem registro em carteira, não dispõe de equipamento de proteção, dorme em um curral sem paredes, não tem acesso a água potável ou a assistência média, férias, 13o salário. Em quase 100% dos casos não conta com um banheiro no local de trabalho.

O trabalho escravo, segundo a OIT, acontece quando existe coação e privação da liberdade. Em 2003, com a mudança do artigo 149 do Código Penal, o que acima foi descrito como trabalho degradante passou a ser interpretado, por alguns especialistas, como escravidão. É o caso de situações extremamente degradantes como as que são encontradas pelo Grupo Móvel nas carvoarias, explica o procurador do Ministério Público do Trabalho, Maurício Pessoa Lima.

Em nenhuma carvoaria foi encontrada água potável

O procurador Luercy Lino Lopes, em seu relatório de março, não hesitou em acusar Simasa e Margusa de envolvimento com trabalho escravo. "Diante das impressões que tive no local, a situação das carvoarias, sobretudo no Pará, é muito grave e reclama providências urgentes. Penso ser necessária uma imediata investida contra as siderúrgicas", afirmou.

Lopes, que acompanhou o trabalho realizado pelo Grupo Móvel durante nove dias e esteve em oito carvoarias entre os municípios de Dom Eliseu (PA) e Pastos Bons (MA), relacionou a existência de 37 trabalhadores na carvoaria da Simasa e 20 na carvoaria da Margusa. Segundo o relatório:

"Não há salário definido, existe a prática de endividamento do trabalhador (sistema de barracão ou cantina); as condições de conforto e higiene são péssimas".

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Reportagem jornalística "Escravos do Aço", de Dauro Veras e Marques Casara, publicada na edição #6 da publicação Observatório Social Em Revista, do Instituto Observatório Social (junho de 2004).

 

Junho de 2004

Florianópolis-SC, Brasil

Uma publicação do Observatório Social