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Escravos do aço
Gusa e degradação
ambiental
A necessidade de carvão vegetal por parte das siderúrgicas
é gigantesca. Segundo o pesquisador do Núcleo de Altos
Estudos da Amazônia, Maurílio de Abreu Monteiro, para
a produção de uma tonelada de ferro gusa é
preciso queimar 2,6 toneladas de madeira. Como a produção
de gusa na região Norte em 2003 foi de 2,2 milhões
de toneladas, isso representa a queima de 5,7 milhões de
toneladas de madeira.
"É um processo intensivo e de baixa eficiência
energética, que necessita de grande quantidade de carvão.
Apenas uma pequena parte da madeira utilizada provém de áreas
de reflorestamento, o restante é mata primária",
explica. Na produção de ferro gusa, o carvão
cumpre duas funções: como combustível para
gerar o calor necessário à operação
do alto-forno da siderúrgica e como agente químico
para retirar o oxigênio durante o processo. O ferro gusa da
Amazônia é considerado o melhor do mundo porque usa
o carvão vegetal e não o mineral. O carvão
mineral contamina o gusa com altos teores de enxofre e impede que
seja aproveitado na produção de aços especiais,
usados principalmente pela indústria automotiva.

Nos anos 80, quando as primeiras siderúrgicas
foram implantadas, o discurso das empresas era de que o carvão
seria obtido em grandes áreas reflorestadas. Isso não
ocorreu, porque obter carvão de mata nativa é bem
mais barato. O carvão vegetal tem grande influência
nos custos de produção do gusa. Representa mais de
um terço do preço final do produto. Em junho, a tonelada
de gusa era vendida por 142 dólares, dos quais 55 correspondiam
ao custo do carvão. "É o insumo através
do qual as siderúrgicas controlam a margem de lucro",
afirma. Mudar a situação nas carvoarias, portanto,
requer não apenas boa vontade, como uma nova configuração
econômica na indústria do aço, que também
leve em conta os custos sociais e trabalhistas da produção
do carvão vegetal.
O pesquisador cita as conseqüências da utilização
da mata primária em larga escala: exploração
predatória dos recursos naturais; desorganização
dos espaços urbanos; ampliação das tensões
no campo e os conflitos fundiários; trabalho de baixa remuneração
e em condições insalubres.
Siderurgia e pobreza
O modelo adotado pelas siderúrgicas na Amazônia reforça
uma estrutura arcaica, baseada no latifúndio, nas péssimas
condições sociais e sanitárias, na baixa remuneração,
nas isenções tributárias e na ausência
de investimentos que beneficiem a comunidade local. É o que
aponta o estudo "Siderurgia na Amazônia oriental brasileira
e a pressão sobre a floresta primária", publicado
pelo pesquisador Maurílio de Abreu Monteiro.
Na década de 80, o governo brasileiro iniciou uma política
de desenvolvimento que visava industrializar e modernizar a região
amazônica. O processo aconteceria graças aos efeitos
em cadeia gerados pela edificação de um complexo industrial
baseado na exportação. Mas a estratégia não
funcionou. Segundo o estudo, o principal elo econômico das
indústrias com a região resumiu-se à demanda
de carvão vegetal.
Apesar de a produção de ferro gusa ter aumentado
ano a ano (veja gráfico), desenhou-se uma situação
contraditória. Escreve Monteiro: "O número de
empregos diretos gerados é pequeno se comparado à
população (...), não sendo capaz de impulsionar
significativas alterações na conformação
do mercado de trabalho regional". Outro aspecto citado pelo
pesquisador, a receita tributária proveniente da atividade,
também não se mostrou eficiente: "As isenções
fiscais sobre os lucros dos empreendimentos e sobre a comercialização
de seus produtos reduzem significativamente o volume de tributos
pagos por essas indústrias".
Maurílio calcula que existam entre 20 mil e 23 mil fornos
em funcionamento nas carvoarias da Amazônia. Para operá-los,
são necessários entre 10 e 12 mil trabalhadores. Em
2003, a região produziu 1,7 milhão de toneladas de
carvão vegetal.


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Reportagem jornalística
"Escravos do Aço", de Dauro Veras e Marques Casara,
publicada na edição #6 da publicação
Observatório Social Em Revista, do Instituto Observatório
Social (junho de 2004).
Junho de 2004
Florianópolis-SC, Brasil
Uma publicação do Observatório
Social
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