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ER6 - trabalho escravo

 

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Escravos do aço

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Carvoeiros esperam fiscais do Grupo Móvel. Foto Sérgio Vignes/IOS

Carvoeiros esperam fiscais do Grupo Móvel.
Foto Sérgio Vignes/IOS

Nos últimos anos, diversos documentos se tornaram referências para avaliar a responsabilidade social empresarial. Entretanto, muitas ações proclamadas como socialmente responsáveis estão mais para filantropia ou estratégias de marketing que para atos concretos e duradouros envolvendo o próprio negócio e a cadeia produtiva.

O trabalho escravo se enquadra em um tópico elementar da responsabilidade social empresarial: uma empresa socialmente responsável deve assumir compromissos públicos com as condições sociais e ambientais na cadeia produtiva. Deve criar critérios para os seus fornecedores, elaborados com o envolvimento dos atores sociais. Deve descredenciar os reincidentes, isto é, os que sistematicamente desrespeitam os direitos fundamentais no trabalho e degradam o meio ambiente.Se não fizerem isso, tornam-se co-responsáveis. O trabalho escravo fere a Declaração Universal dos Direitos Humanos, a Declaração dos Direitos Fundamentais no Trabalho da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e as Diretrizes para Empresas Multinacionais da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Instituições financeiras, sobretudo fundos de pensão e bancos públicos como o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) não deveriam financiar empresas que utilizam trabalho escravo ou degradante no seu processo de produção.

Outra referência importante é o Global Compact, iniciativa da Organização das Nações Unidas que está na moda entre empresas socialmente responsáveis. Ele visa a adesão voluntária e a mobilização da comunidade empresarial para a promoção de valores fundamentais nas áreas de direitos humanos, trabalho e meio ambiente. Conta com a participação de empresas, sindicatos, organizações não governamentais e diversas agências da ONU. Mais de mil empresas são signatárias do Global Compact, que exorta as organizações a incorporarem dez princípios básicos. Destes, três estão diretamente ligados à responsabilidade na cadeia produtiva:

- Apoiar e respeitar a proteção aos direitos humanos dentro de sua esfera de influência;

- Assegurar que suas próprias corporações não sejam cúmplices de abusos contra os direitos humanos;

- Eliminar todas as formas de trabalho forçado e compulsório.

Nenhuma das corporações citadas aqui é signatária do Global Compact. Infelizmente, um dos fatores que afetam a credibilidade dessa iniciativa é que muitas empresas, mesmo quando aderem aos seus princípios, não monitoram seu cumprimento. Na prática, tem se verificado que esses princípios não estão sendo respeitados.
Outra referência é o Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social. Em seus Critérios de Seleção e Avaliação de Fornecedores, diz o Ethos:

"A empresa deve incentivar seus fornecedores e parceiros a aderir aos compromissos que ela adota perante a sociedade. Também deve utilizar critérios voltados à responsabilidade social na escolha de seus fornecedores, exigindo, por exemplo, certos padrões de conduta nas relações com os trabalhadores ou com o meio ambiente".

O trabalho escravo, no entender do Ethos, é um padrão de conduta totalmente inadequado a um fornecedor. "O comprometimento com a qualidade da cadeia produtiva é extremamente importante para fortalecer a responsabilidade social empresarial", diz o assessor de políticas públicas da entidade, Caio Magri. "É fundamental que uma empresa comprometida com a responsabilidade social não aceite o trabalho escravo na sua cadeia produtiva". Para Magri, as empresas precisam conhecer bem seus fornecedores e adotar padrões de relacionamento pautados pelo respeito aos direitos humanos. "É importantíssimo desvendar e denunciar uma cadeia produtiva onde exista trabalho escravo", diz.

Propostas

O diretor da Confederação Nacional dos Metalúrgicos, Fernando Lopes, funcionário da Gerdau, concorda que o problema começa nas carvoarias ligadas às siderúrgicas, que usam mão-de-obra escrava em alguns casos e trabalho degradante em outros. "É preciso ter um controle mais rígido, uma posição de responsabilidade social concreta e que a siderúrgica saiba de quem está comprando o carvão", diz.

Lopes propõe que siderúrgicas e sindicatos façam uma parceria para fiscalizar o trabalho nas carvoarias. "O primeiro passo seria a formação de uma comissão para atuar diretamente no controle do problema".

Outra idéia é encaminhar a discussão do tema nas Comissões Municipais de Trabalho e Renda, nas quais podem ser apresentadas propostas conjuntas entre sociedade, sindicatos e empresas. "Esse é um espaço adequado para o início de uma conversa. Ou se criam instrumentos concretos ou o problema não será resolvido", avalia.

Uma das preocupações do sindicalista reside nas eventuais sanções que podem ser impostas por compradores internacionais de ferro gusa. "No mercado globalizado de hoje, qualquer pretexto pode ser usado para barrar um produto, aplicar sanções, o que seria muito ruim para o país". Por outro lado, segundo ele, o problema não pode ser simplesmente varrido para debaixo do tapete: "É preciso transparência, união de esforços. É um problema social grave, a sociedade e os mercados precisam assumir uma posição clara sobre o trabalho escravo".

Na relação entre carvoarias e siderúrgicas, são tantas as irregularidades que o direito a sindicalização é um tema desconhecido pelos carvoeiros. A reportagem não detectou qualquer atividade sindical junto a essa categoria. A Convenção 98 da OIT, ratificada pelo Brasil em 1952, protege os trabalhadores dos atos que atentem contra a liberdade sindical e preconiza o fomento da negociação coletiva de trabalho. Uma possibilidade é de que o acordo coletivo do sindicato das indústrias metalúrgicas incluísse cláusulas extensivas aos trabalhadores das carvoarias. É um assunto que poderia ser tratado em um eventual plano de ação entre siderúrgicas e sindicatos na fiscalização das carvoarias.

O trabalho escravo na cadeia do aço mostra o quanto o livre mercado desconsidera os custos sociais da produção industrial. Na ponta inicial estão trabalhadores que não têm água potável, banheiro, assistência médica nem liberdade. O valor criado por esses peões é apropriado por escravocratas modernos que exploram sua dignidade. Grandes corporações fecham os olhos para esse crime - com riscos para sua imagem e para o próprio negócio - e lucram produzindo materiais de última geração. Que, por sua vez, são adquiridos por consumidores globalizados, mas quase nunca bem informados sobre a procedência dos produtos.

Esse círculo infernal não é uma fatalidade, é uma circunstância histórica que pode ser rompida. Prevenção, repressão, reabilitação, combate à impunidade, investimentos sociais, comércio internacional com regras justas, pressão social e atitudes responsáveis das empresas são passos fundamentais para mudar.

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Reportagem jornalística "Escravos do Aço", de Dauro Veras e Marques Casara, publicada na edição #6 da publicação Observatório Social Em Revista, do Instituto Observatório Social (junho de 2004).

 

Junho de 2004

Florianópolis-SC, Brasil

Uma publicação do Observatório Social